quinta-feira, 9 de outubro de 2008

A salvação vem do bar

Um grito ensurdecedor de Ian Gillan no ouvido.

"I can't find a way to pay you back your twenty pounds
Really got a lot of lovin' that i wanna give
Baby i'm a mystery but you know i gotta live
I tried another but she didn't wanna know
Aaaaaaaaaananananana!!!!!!!!"

E quando eu acabo de escrever essa porra toda começa a tocar "Child in time". A capa do In Rock aberta no colo para acompanhar as letras e ficar horas olhando a mesma foto.
O que me lembra que o mundo está perdido. No último fim de semana veio o filho do cara que mora aqui em casa fazer uma visita. 15 anos tem o guri. Eu e o outro cara que mora aqui em casa já bêbados com uma garrafa de Ballantine's e dois cigarrinhos daqueles na cabeça.

- Tua vez de colocar um som - digo para o companheiro de bebida.
- Esse todo mundo vai gostar - responde ele enquanto puxa um Elvis da prateleira.

Os quatro estão na sala, em semi-círculo, com um visível mal estar por parte de pai e filho em relação aos bêbados. Começa a tocar "Suspicious mind" e o guri pergunta:

- O que é isso que está tocando?

Não tenho como me segurar e dou uma gargalhada. Só eu. Quando o outro bêbado percebe a situação dá uma risadinha para acompanhar o amigo. Lá pelas tantas também percebo a gravidade do problema e pergunto sério:

- Tu não conhece o Elvis?

Aquela entortada de boca para baixo e a negativa com a cabeça acabaram com os últimos 50 anos da humanidade. Foi tudo em vão. Nem Elvis, o rei, sobreviveu. O que me põe numa situação delicada. O que estou fazendo aqui?
O outro bêbado demonstra um estado de lucidez fora do comum.

- Essa geração de hoje perdeu as referências - diz com aquela cara de "tudo bem, velho, tudo bem. Não esquenta que isso é comum."
"Mas nem Elvis, o rei?", pergunto só com os olhos. A resposta parece ter sido um "fazer o quê?".

Me ocorre agora que chegamos num ponto de tantas escolhas que ninguém sabe mais o que escolher. De vez em quando o Elvis aparece em alguma notícia da internet, mas é só o Elvis, e não "O" Elvis. O tão tenebroso dia em que o Rock'n'Roll seria apenas um divertimento para meia dúzia de aficcionados, assim como é a música clássica, finalmente chegou.

- Elvis, é o rei do Rock! - solto na esperança de resgatar uma memória esquecida, um resquício da humanidade, da civilização.
- Ah, eu não sabia que isso era Rock.

Que dor, que dor, que dor......
O que estão fazendo com as crianças? Quem cuida delas?
Não gostar de Rock'n'Roll é um direito que, apesar de ridículo, as pessoas têm. Agora, não saber o que é Rock'n'Roll é imperdoável.
O fracasso do mundo é que ninguém mais dá bola para as crianças. Os enchem de informações e foda-se; seus cérebros que se explodam. Daí surge uma geração que simplesmente não sabe nada de verdade. Sabe apenas mexer em botões sem saber o porquê. São justamente esses cérebros que formarão a classe que sustenta os caras que precisam manter as regras absurdas que vivemos para seu próprio interesse.
Hoje em dia, passar mais de meia hora com a capa do In rock aberta no colo, observando todos os detalhes, é um ato de subversão. Conhecer a história e saborear as coisas verdadeiras é um ato de subversão. Ler um livro é um ato de subversão. Conversar cara a cara é uma subversão.
Por isso acredito que nossa salvação virá do bar, pois nos dias atuais só os bêbados têm coragem suficiente para encarar a realidade, com suas dores e alegrias.

3 comentários:

Viviane disse...

Por isso que o primeiro presente dos meus filhos vai ser uma coletânia dos rocks mais clássicos.
É fato ... muitos nem sabe o que é um Elvis, ACDC, Led.. espero que não se percam no tempo... E que os bêbadas jamais deixem de falar deles. \o

marcoss disse...

se puxô hein meu...parabéns!!
disse tudo!

Sabrina Putzgrila disse...

hahaha
muito bom muito bom!
abraço